22.4.09

_semblante do suicídio

Voltou a assombrar-me
Aquele pensamento nu
Despido de rodeios
Uma cria de Belzebu

Alimentou minha insônia
E desperdiçou meu dia
Ocupou-me com o vazio
Para tornar-me moradia

Escondeu meu sorriso
Por trás de olhos secos
Afastou meus amigos
Livrou-me do que necessito

Agora sim, sou todo seu
Conclusão óbvia e definitiva:
Fim de uma vida triste e vazia
E o livramento da agonia

Um comentário:

Igor disse...

Esse texto me remete ao último capítulo de um livro de Jorge Amado que bem poderia ter como última parte escrita como epitáfio do poeta morto....

Cap. XII
Não houve jeito e agência funerária receber o esquife de volta, nem pela metade do preço. Tiveram de pagar, mas Vanda aproveitou as velas que sobraram. O caixão está aberto até hoje no armazém de Eduardo, esperançoso ainda de vendê-lo a um morto de segunda mão. Quanto à frase derradeira há versões variadas. Mas, quem poderia ouvir direito no meio daquele temporal? Segundo um trovador do Mercado, passou-se assim:

"No meio da confusão
ouviu-se Quincas dizer:
"- Me enterro como entender
na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
em cova rasa no chão"
E foi impossível saber
o resto da sua oração"
Jorge Amado
A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água.