4.6.09

_ o conto do porco-espinho

Todo porco-espinho é solitário. Nem os parentes conseguem chegar muito perto. Quanto mais abraços querem, mais se espetam uns aos outros - e assim, mais aumenta a saudade. Não que todo porco-espinho seja mal, longe disso! Mas o seu exterior causa medo e repulsa, espantando todos os animais - incluindo os que andam em duas patas - que circulam o habitat do mesmo. Sofredor nato e carente por natureza, todo porco-espinho precisa de carinho, mas por melhores que sejam suas intenções, eles não conseguem se aproximar de ninguém. Rejeição é como a ação, sempre tem uma reação. O isolamento é a preferência nacional na terra desses pequenos mamíferos, mas há aqueles que tentam ser firmes e não arredam pé! Só que estes tornam-se carrancudos e afiados - apenas externamente - como os seus espinhos. Ninguém sabe, ninguém nunca viu, mas todo porco-espinho chora em baixo de um rarefeito rastro de luz lunar, pedindo por um alguém que pudesse estar ao seu lado. Pobre de todo porco-espinho que espera uma resposta dos céus - vazios e gélidos. Será que esperança para estes porcos que de suínos têm apenas parte de sua graça? Que ser vivente poderia suportar as espetadas dos espinhos, até descobrir que em baixo de toda aquela carcaça rústica reside um animal dócil e necessitado de atenção? Ás vezes, eu mesmo duvido da capacidade de existir alguém de tão bom coração - e sem espinhos brotando de seu corpo. Talvez exista um peixe-palhaço terrestre, que ao invés de brincar e nadar ao redor e dentro dos corais venenosos, dançaria dia e noite com um porco-espinho sortudo. Quem sabe uma borboleta? Sim! Elas são seres quase divinos. Tocam os céus com suas asas, pintando o azul celeste com suas cores distintas - únicas por serem delas e somente delas. As borboletas têm as patas delicadas o suficiente para pousar sobre os espinhos pontiagudos dos felpudos rejeitados. E foi assim, com estas delicadas palhetas aladas, que um porco-espinho pôde descobrir como é bom sentir um abraço - mesmo de patas tão pequeninas. Brincavam sobre as planícies, escondiam-se na mata e corriam pelos campos - todos são belos por serem abertos, menos os elíseos, que de campos me lembram 'concentração'. Mas como a vida é como só ela há de ser, um dia a borboleta decidiu que era hora de partir e. sem mais nem menos. soltou-se do seu espinho preferido e voou para longe. Pobre do porco-espinho, mais uma vez solitário - como a natureza parece desejar que seja. Quais serão os pensamentos deste pequeno? O que sobrou para ele? Pela primeira vez, ele acreditou que existia alguém que não temia ficar ao seu lado. Que besteira a dele acreditar que alguém realmente gostaria de um espinhudo - e ele era, muito. Talvez fosse melhor permanecer como antes: sozinho e de coração vazio. Agora? Agora, sabendo que existe alguém que pode lhe dar amor no mundo, a dor é descomunal. Antes, a solidão doía, mas agora tornava-se insuportável. Ele sabe que as leis da natureza são imutáveis e não lhe é permitido obrigar a borboleta a voltar para si, então o máximo que pode desejar é um bom caminho para sua antiga colega - que se vá em paz. Mas que vá depressa, pois não irá se segurar por muito tempo - quer mudar de idéia, sem dúvida. História sem final feliz aos olhos de quem vê; Conto de fadas como qualquer outro aos olhos de quem vai vivendo; Esperança de, um dia, encontrar a sua própria borboleta. Este é o pensamento daqueles que sentem e vivem seus sentimentos. Nada é eterno, nem o amor, - 'posto que é chama' - pois a lei da natureza é essa, somos recicláveis e assim devem ser nossas histórias e nossos sentimentos. Um dia a borboleta azul vai embora, mas que venha a borboleta vermelha e, senão, venha um novo dia e um novo começo - ponto final não é finalista, no sentido de bloquear a continuidade, é a informação de que um novo começo está por vir (sem ponto final)

3 comentários:

Igor disse...

Quero ser um porco-espinho

Bruna Escaleira disse...

alguns traços pontiagudos como sempre - já que a personalidade não permite diferente,
mas delicado como nunca achei que você escreveria.

PS: quero ser sua borboleta ;p

Formiga disse...

Gustavo, Compartilhei hoje seu conto! Obrigada pela linda história.
Abraços, Heloisa